DIA MUNDIAL DA PREMATURIDADE

O impacto do nascimento de um prematuro

Emanuela Lopes, PhD – Psicóloga Clínica e da Saúde

Joana Neves, Dr.a – Neonatologista

17 de novembro – DIA MUNDIAL DA PREMATURIDADE

Anualmente, a 17 de novembro, comemora-se o Dia Mundial da Prematuridade ou Dia Internacional da Sensibilização para a Prematuridade. A data é promovida pela EFCNI – European Foundation for the Care of Newborn, uma plataforma europeia criada em abril de 2008, por pais e profissionais de saúde com o propósito de dar voz aos recém-nascidos prematuros, bem como às suas famílias. 

World Prematurity Day 2021 is: Zero Separation Act now!

Keep parents and babies born too soon together.” EFCNI

A nossa forma de honrar os guerreiros que nascem antes do tempo pelo mundo fora, foi elaborar um artigo no Dia Mundial da Prematuridade intitulado: O impacto do nascimento de um prematuro.

PREMATURIDADE

Artigo escrito em conjunto com Professora Emanuela Lopes.

O tema surgiu porque trabalho como Neonatologista numa unidade de cuidados intensivos e no seguimento de bebés prematuros e apoio aos seus pais e cuidadores. É também um tema que a Professora Emanuela já abraça há largos anos, daí que me tenha desafiado para esta oportunidade de crescimento e partilha, que é escrever um artigo a quatro mãos.

Eu abordarei a vertente mais técnica e a ela caberá toda a perspetiva psicossocial do nascimento de um bebé prematuro no seio de uma família.

O que é a Neonatologia ?

A neonatologia é a área da medicina que se dedica ao diagnóstico e tratamento das doenças dos recém-nascidos e aos cuidados específicos a prestar aos bebés prematuros.

O que é um bebé prematuro?

A duração considerada “normal” de uma gravidez é entre 37 e 42 semanas.

Um bebé prematuro é todo aquele bebé que nasce antes das 37 semanas.

Significado da palavra prematuro

Esta palavra origina-se de 2 termos do latim:

Prae (que significa antes) + maturus (que significa maduro)

O prematuro é aquele bebé que nasce antes de estar maduro!

Quais são as características físicas de um prematuro?

(texto adaptado de XXS – associação portuguesa de apoio ao bebé prematuro)

• Tamanho pequeno

• Baixo peso ao nascer (peso ao nascimento <1500g)

• Pele fina, brilhante e rosada, por vezes coberta por uma penugem fina (lanugo)

• Veias visíveis sob a pele

• Pouca gordura sob a pele

• Cabelo escasso

• Orelhas finas e moles

• Cabeça grande e desproporcional em relação ao resto do corpo

• Músculos fracos e mobilidade espontânea reduzida

• Reflexos de sucção e de deglutição fracos ou inexistentes

• Respiração irregular

Imaturidade do prematuro

Nascer antes do tempo

 O prematuro, como o nome indica, nasce antes dos seus órgãos estarem suficientemente amadurecidos para o desafio que é a vida após o parto.

Vulnerabilidade

Esta imaturidade torna o bebé que nasce antes do tempo mais vulnerável a determinadas doenças e alterações do seu metabolismo, como por exemplo as infeções, a hipoglicemia (baixa de açúcar no sangue), a anemia (diminuição do número de glóbulos vermelhos no sangue) entre outras e a ter uma sensibilidade aumentada a estímulos como o ruído e a luz.

Os bebés prematuros necessitam de cuidados especiais?

Sim, os bebés que nascem antes do tempo, especialmente aqueles com idades gestacionais inferiores a 35 semanas, vão necessitar de ajuda enquanto os seus órgãos e sistemas amadurecem num ambiente hostil em comparação com o útero materno.

Que cuidados são esses?

Quanto mais pequeno e menos semanas tiver o bebé ao nascimento, mais específicos terão de ser esses cuidados.

Os bebés entre as 35 e as 37 semanas, se não tiverem outras condições associadas, ficarão na enfermaria, junto às suas mães (chamado alojamento conjunto), idealmente o pai, se assim pretender, também poderá pernoitar e auxiliar a mãe nos cuidados ao recém-nascido, sob vigilância da equipa de enfermagem de Obstetrícia.

Os bebés com idade gestacional inferior a 35 semanas, na sua grande maioria, são internados em Unidades de Neonatologia em cuidados intensivos (UCIN) ou cuidados especiais (UCEN) consoante os cuidados que inspire a sua condição geral quando são admitidos (o dia de admissão é o dia em que o bebé é internado na unidade).

Os cuidados proporcionados nas unidades variam de acordo com as necessidades dos bebés internados, mas as 3 principais funções em que estes bebés recebem auxílio são a respiração, a alimentação e o controlo da temperatura corporal (incubadora).

Como podemos classificar um prematuro?

Os prematuros podem ser classificados de acordo com a idade gestacional ao nascimento.

O que é a idade gestacional (IG)?

A idade gestacional é o número de semanas completas e o número de dias que o bebé completa no dia em que nasce.

Pode ser calculada a partir da data da última menstruação (DUM) e corrigida pela primeira ecografia, desde que realizada precocemente na gravidez e permite estabelecer uma data provável para o parto.

Classificação dos prematuros de acordo com a IG

  • Prematuro limiar – IG entre 33 e 36 semanas e 6 dias
  • Prematuro moderado – IG entre 28 e 32 semanas e 6 dias
  • Prematuro extremo – IG inferior a 28 semanas

Quanto menor for a idade gestacional ao nascimento maior é a imaturidade dos órgãos e sistemas e geralmente menor o peso do nascimento. Por conseguinte este último grupo é o mais propenso a complicações e aquele que vai necessitar de apoio e de cuidados neonatais mais diferenciados e durante mais tempo, o que quer dizer que estes bebés vão apresentar estadias mais prolongadas nas unidades neonatais.

Um bebé prematuro corre risco de vida? Sequelas?

Sim, pela imaturidade já referida e pelo risco de complicações inerentes aos procedimentos que são realizados nas unidades para lhes tentar salvar ou melhorar a qualidade de vida.

As possibilidades de sobrevivência estão relacionadas em primeiro lugar com a idade gestacional, ou seja, quanto mais elevada é idade gestacional maior é a probabilidade dos sistemas orgânicos estarem mais maduros, o que aumenta as hipóteses de sobrevivência.

 O limite da idade gestacional na qual é provável que um bebé prematuro possa sobreviver (prematuro viável) tem vindo a diminuir. Em Portugal, atualmente, pode considerar-se viável um recém-nascido com idade gestacional entre 23-24 semanas.

As incapacidades/sequelas são difíceis de prever numa fase inicial do internamento na unidade. Se por um lado há fatores que aumentam o risco de sequelas, por outro lado os avanços recentes, nesta área em particular, têm permitido a sobrevivência sem sequelas de bebés cada vez mais imaturos.

De acordo com a evolução do bebé prematuro e os problemas que venha a desenvolver durante a estadia na unidade de neonatologia, a equipa que o trata vai conseguir fornecer informações acerca das possibilidades de sequelas futuras, se bem que algumas delas só poderão ser diagnosticadas em etapas posteriores da vida do prematuro. Este fato faz com que esteja recomendada a vigilância em consulta de neonatologia, por equipa multidisciplinar*, para permitir a sua deteção e sobretudo intervenção precoce no sentido de as minimizar.

*pediatria do desenvolvimento, neuropediatria, pedopsiquiatria, oftalmologia, psicologia, otorrinolaringologia e outros profissionais de saúde.

ASPETOS PSICOLÓGICOS

O nascimento prematuro de um bebé pode ser sentido como acontecimento traumático. A prematuridade é constituída por uma série de episódios críticos e marcantes, com progressos e retrocessos da saúde do bebé tendo consequentemente impacto e consequências psicológicas nos pais.

Consequências psicológicas na família

O nascimento prematuro é sempre um desafio para a família, principalmente para a mãe, podendo até ser considerado um acontecimento potencialmente desestruturante para a família.

A interação com o bebé pode provocar muita insatisfação e frustração para os adultos já que frequentemente o recém-nascido prematuro não consegue responder às fantasias e expectativas que os adultos vão criando ao longo da gravidez, uma vez que costumam ser bebés com baixo peso, pele amarelada, por vezes pouco responsivos aos estímulos (ou com outras características como referido anteriormente).

Estes fatores podem dificultar o desenvolvimento do vínculo afetivo entre o bebé e a mãe e até existir repercussões nos cuidados maternos.

Esta situação pode ser agravada quando o bebé é internado na Unidade de Cuidados Neonatais, o que para a família representa uma situação de crise, pela apreensão resultante da incerteza da evolução clínica do bebé (futuro incerto e fora do seu controlo), tristeza desencadeada pela separação precoce imposta pelo internamento, pela possibilidade de morte e muitas vezes sentimento de culpa por não ter conseguido conduzir a gestação até o final.

O nascimento prematuro de um bebé pode também acarretar para a familiar uma sobrecarga:

física (uma vez que podem desenvolver alguns problemas de saúde e que pode fazer com que a criança precise de cuidados médicos frequentes),

emocional (por vezes a exigência familiar é bastante uma vez que podem ser crianças frágeis, com pouca interação),

social (uma vez que pode limitar a sua participação em atividades normalmente associadas à infância e consequentemente interferir no desenvolvimento das suas competências sociais),

educacional (algumas crianças precisam de maior apoio na aprendizagem),

financeira (também por todos os cuidados e necessidades que possam precisar).

A nível psicológico existem vários estudos com evidências que as consequências podem ser várias, tendo também um impacto direto na vida social, profissional e emocional dos pais.

A ansiedade, angústia, medo, desamparo, desejo de fuga, necessidade de estar com o filho, de cuidar dele, são alguns dos sentimentos que as famílias que passam por uma experiência desta natureza referem.  

O nascimento prematuro do bebé também é considerado um fator de risco para a doença psicológica. Sabe-se que a mãe é particularmente sensível a algumas perturbações mentais no puerpério (período imediatamente a seguir ao parto). A perturbação da ansiedade e a depressão pós parto são as mais frequentes e necessitam de tratamento psicológico e/ou psiquiátrico.

O que fazer?

De acordo com alguns estudos, os comportamentos parentais devem ser mais recetivos e sensíveis ao bebé e isso costuma produzir efeitos positivos e importantes, não só na evolução clínica do bebé como também na redução da sobrecarga emocional da família.

Algumas estratégias podem ser usadas e ajudam a reduzir o impacto negativo da prematuridade, do stress da mulher e contribui para uma maior responsividade parental:

– “Método Canguru” em que o bebé é tocado regularmente (pele a pele) pela mãe;

– Acompanhamento psicológico de mãe e/ou pai (se necessário);

– Suporte social, quando a mãe sente que há em quem se apoiar, seja pelas estruturas e meios existentes na comunidade seja pelo apoio de amigos e/ou familiares.

Conclusão

Para além dos cuidados necessários e imprescindíveis que tem que se prestar ao recém-nascido prematuro é importante dar também uma atenção especial à saúde mental da mãe e/ou do pai. Isto torna-se mais evidente se o recém-nascido necessitar de internamento na Unidade de Cuidados Neonatais.

Uma boa ligação com os profissionais de saúde, a compreensão da doença e da evolução clínica do bebé, um bom apoio familiar de retaguarda e boas condições emocionais, ajudam a lidar com esta experiência e a aumentar a capacidade nos cuidados que o bebé precisa e na criação de um vínculo positivo com o bebé. 

CONTATOS ÚTEIS

www.spneonatologia.pt (Sociedade Portuguesa de Neonatologia)

xxs-prematuros.com (Associação Portuguesa de Apoio Ao Bebé Prematuro)

www.prematuridade.com (Associação Brasileira da Pais, Familiares, Amigos e Cuidadores de Bebês Prematuros, ONG)

marchofdimes.com (USA)

www.cpbf-fbpc.org (Canadian Premature Babies Foundation)

www.efcni.org (European Foundation for the Care of Newborn Infants)

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